Maid - O outro lado da moeda dos Estados Unidos

02/02/22 - 15:01

*Wellberty Hollyvier D’Beckher

Esta série dramática mostra um Estados Unidos pouco conhecido do grande público fora de lá, o da pobreza dos brancos. Já que muitos filmes exploraram a pobreza dos negros, isto deu a impressão ao resto do mundo que lá os brancos vivem todos uma boa vida e que as dificuldades são enfrentadas apenas pelos afro descendentes e imigrantes, o que é uma mentira. Como em todo o resto do mundo, todas as etnias têm suas classes, desde a mais pobre aos bilionários, mas Hollywood, em pouquíssimas produções, mostrou a pobreza como nesta série. Nela, 12 dólares na conta é um luxo.

A série narra a história de Alex (Margareth Qualley) uma mulher que é abusada psicologicamente e financeiramente pelo namorado Sean (Nick Robinson). Ele a deixa totalmente depende dele, tirando dela seus cartões e a impedindo de ganhar seu próprio dinheiro. É verbalmente agressivo, mas não é violento fisicamente. Ele, por exemplo, em um de seus acessos de fúria, quebra um vaso e da um murro na parede do trailer em que moram. As coisas vão piorando e Alex começa a temer pela sua integridade física e de sua filha, e decide sair de casa e procurar ajuda.


Ela vai para um abrigo de mulheres vítimas de abuso domésticos para tentar recomeçar a vida. No início da série vemos Alex entorpecida, as pessoas falam com ela e ela demora a responder, como se não tivesse ali. Sua apatia perante a vida só dá uma trégua nos momentos que ela está com sua filha de três anos, pois ela ama ser mãe. No abrigo ela se recompõe e arruma um emprego de faxineira, ganhando 15 dólares a hora. No início ela tem poucas faxinas e, para sobreviver no mínimo dignamente, recebe vários auxílios do governo para complementar sua parca renda. Nós a vemos contar cada centavo, ele sobrevive com o mínimo, depois de pagar, o aluguel, as contas de casa e a comida, lhe sobra nove dólares por semana, é uma vida de lutas diárias e às vezes ela toma algumas decisões questionáveis, mas que se entrarmos na cabeça dela, vai parecer a decisão certa.


Como se sua vida já não fosse um caos, somente ela e a filha, ela ainda luta com a mãe (Andie McDowell), uma artista plástica fracassada, drogada, bipolar e alienada. Seus pais se separaram quando ela ainda era muito criança, sua relação com eles não é no início afetuosa, mas nesta nova fase de sua vida, ela em algum momento se aproxima deles, por motivos de sobrevivência. Alex é uma escritora amadora, escreve em um caderno sobre as casas que limpa e a personalidade de seus patrões, ela dá um nome para cada casa que faz faxina, o que no futuro vai ser útil para ela.


Não podemos afirmar que há vilões na série, o ex-namorado luta contra o alcoolismo e tem uma família complicada, mas é ótimo pai. Quando vemos o motivo da mãe ser como é, passamos a entende-la. Quando, enfim, Alex se recorda do dia que os pais se separaram, é doído, mas os personagens Nate (Raymond Ablack) e Regina (Anika Noni Rose) têm uma importância muito grande na vida de Alex. Nate é um amigo prestativo que se apaixona por ela, mas a primeira vez que ele tenta dizer o que sente, Alex se assusta e parece ter medo dele, como se todos os homens fossem igual ao seu ex namorado. E Regina é uma de suas patroas ricas, que parecem ter uma vida perfeita e invejável, mas com o tempo Alex descobre que não é bem assim.


A série tem um roteiro redondo. Mesmo com 10 episódios é uma série boa para maratonar. O sétimo e o oitavo episódio parecem arrastados, mas temos que levar em conta o momento vivido por Alex. Eu não via a pobreza americana sendo mostrada de forma tão escancarada assim desde que li o livro Uma Prece Para Danny Fisher, de Harold Robbins. É uma série que nos faz refletir e repensar sobre o que realmente é a dificuldade de sobrevivência.


A série pode ser vista na Netflix Nota 9\10


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imagem*Wellberty Hollyvier D’Beckher é formado em artes cênicas pela UFMG, pela faculdade do Rio de Janeiro em crítica e análise de filmes, além de cinéfilo desde os 10 anos de idade.

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