Nossa História

A Lição da Velha Câmara!

Neste ano de eleições, e ainda homenageando o saudoso JOVELINO LANZA, reproduzimos uma de suas festejadas crônicas: “Tenho lido em todos os jornais advertências aos eleitores para que saibam escolher, nas próximas eleições de três de outubro, os nossos representantes, pois, se não houver muito cuidado, poderemos ser vítimas de verdadeiras tragédias.

10/02/24 - 08:00

Por Amauri da Matta

Tenho para mim que o recado está errado. Essas advertências devem ser endereçadas aos partidos políticos, e não aos eleitores. Ora! Se o partido não registrar maus candidatos, o eleitor, logicamente, neles não poderá votar. Registrados os candidatos, tudo indica que são dignos de nossos votos. Ademais, esses fabricantes de belos artigos e de extensos boletins devem estar em condições de ser nossos representantes e, por isso, esperamos que, sem demora, se apresentem. Não é possível que os presidentes de partido continuem brincando de esconder e, na atitude pouco honesta, de trombetear acordos sem respeitá-los, acordos ‘para inglês ver’, isto é, acordos apenas para que os escolhidos sejam eles. Então, temos: case-se com quem você quiser, contanto que seja com a filha do compadre. Isso, positivamente, não é viável. Escolha-se o homem, leve-se o seu nome à consideração dos outros partidos para que, com conhecimento de causa, eles digam sim ou não. 

Também quem proclama que estamos perdidos deve desembainhar a espada, sair à rua e dizer a coisa por inteiro, e não se limitar a dizer simplesmente que não se envolve em política, fugindo à responsabilidade. Não adianta cuidar dos galhos se o tronco já está morto. Se o seu lema é ‘deixar a paina voar’, nada pode reclamar, porque está pecando pela omissão. O que se vê – e saibam disto os que querem ser donos da enchente – é que os eleitores estão atentos e já perceberam as manobras dos ‘tais’ que querem as vantagens, mas estão fugindo do ônus. Mas estou me desviando da rota, porque o meu objetivo não é doutrinar, e sim levar ao conhecimento dos futuros candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereadores de Sete Lagoas o fato a seguir exposto, para que sirva de orientação às nossas futuras autoridades.  

Em 1922, foram eleitos vereadores os cidadãos Dr. Alonso Marques Ferreira, Adralino Padrão, Antônio Cassimiro, Cel. Américo Teixeira Guimarães, Juca Pereira, Cel. Cristiano Mascarenhas e Cel. Antônio Andrade. Naquele tempo o presidente da Câmara acumulava a função de prefeito – agente do Executivo. Sete Lagoas tinha uma dívida de duzentos contos, por haver negociado um empréstimo com a firma bancária Piriet et Compagnie, estabelecida na França, cujo intermediário foi o Banco Hipotecário. Tal empréstimo foi feito em francos, ou seja, duzentos mil francos, à razão de mil réis o franco. O vereador Adralino Padrão foi ao Rio de Janeiro em viagem particular e lá ficou sabendo que o franco estava desvalorizado, pois valia quinhentos réis. Adralino antecipou sua volta e, aqui chegando, imediatamente levou o fato ao conhecimento do Dr. Alonso, o qual, por sua vez, reuniu a Câmara, expôs o fato e, daí, deliberaram comprar, com o dinheiro deles, os vereadores, os duzentos mil francos, pois o município não dispunha da importância. Assim, pagaram a dívida municipal, ganhando o município cem contos de réis. Devemos salientar que a firma credora se opôs tenazmente a realizar a transação, pois o seu prejuízo era evidente. Para tanto,  foi preciso que o Dr. Alonso Marques Ferreira, então agente do Executivo, fizesse diversas viagens a Belo Horizonte e ao Rio e mantivesse entendimentos com o Governador e com o Presidente da República. Sem esse esforço, não se teria realizado o negócio. Aí fica, pois, o belo e esplêndido exemplo para ser seguido pelos que conquistaram o comando do município em três de outubro. Essa lição dada pelos vereadores de 1922 deve servir de exemplo aos nossos futuros prefeito, vice-prefeito e vereadores, porque envolve grande e verdadeiro espírito público e, assim, não pode ser esquecida. Não sendo esquecida, dizemos que o que passou, não passou – ficou” (MINHA SETE LAGOAS, Crônicas da cidade de outros tempos, pág. 106. Belo Horizonte, Armazém de Ideias, 1999. 255 páginas).

Amauri da Matta

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