Educação versus Elucidação: o que você escolhe? 

19/03/21 - 07:54

Dr. Sílvio de Sá

O nascimento da ciência, como método racional para explicar o desconhecido, ocorreu no século VI a.C, conforme ensina o filósofo e pensador italiano Emanuele Severino. Entretanto, esse novo método de explicar os fatos, ante o domínio dos mitos e das crenças, causou uma grande polêmica entre os filósofos da Grécia antiga. 

Parte dos filósofos defendiam um modelo de Escola formal fundada em uma tradição elucidativa, outra parte defendia que a Escola formal deveria seguir a tradição da educação. São poucos os livros que relatam esse conflito sobre qual o paradigma de conhecimento a escola grega deveria seguir: educação ou elucidação. 

Em sentido stricto, a Educação pode ser definida com sendo a capacidade das Escolas transmitirem um aprendizado específico ou as técnicas culturais de uma civilização. Em sentido mais amplo, a Educação significa o meio formal pelo quais os hábitos, as crenças, os costumes e os valores de uma comunidade são transferidos de uma geração para outra. 

Por outro lado, os defensores da escola Elucidativa defendiam que o conhecimento só deveria ser transmitido após uma testabilidade crítica e autocrítica do próprio conhecimento produzido. Eles acreditavam que nenhum conhecimento pode, prima face, ser taxado como seguro ou democrático, de modo que uma civilização poderia, pela via da educação, transmitir uma forma ideológica de dominação. 

Dentre os grandes idealizadores da escola fundada na tradição da elucidação podemos destacar Tales de Miles e Xenofánes, ambos vinculados a Escola Jónica. Tais pensadores sustentaram que a Elucidação, diferentemente da Educação, deveria cultivar a tradição da crítica e autocrítica, antes que o conhecimento fosse repassado para os outros. Eles acreditavam que o conhecimento, quando não submetido a um rigoroso teste crítico, poderia propagar formas convencionais de dominação pela via da cultura dos mais fortes e ditos civilizados. 

Em 450 a.C, Péricles de Atenas passou sustentar que o futuro da Grécia dependeria de escolas fundadas na tradição da elucidação. Entretanto, 80 anos depois, as escolas fundadas na tradição da educação ganharam força e hegemonia em toda a Grécia antiga. Um dos principais defensores da tradição da educação foi Platão que, influenciado por Sócrates, Pitágoras, Heráclico e Parmênides, sustentou que o conhecimento deveria ser específico a determinadas camadas de indivíduos.  

Para o pensador supracitado, nem todos nasceram para ser reis, políticos ou senhores. Algumas raças humanas ou categorias de indivíduos nasceram, defendeu Plantão, para serem escravos ou servos, razão pela qual as escolas gregas deveriam repassar um conhecimento que cultivasse essa condição histórica. Por outro lado, Péricles de Atenas defendia que as escolas gregas deveriam capacitar todo povo grego como um todo, seja príncipes ou servos, com um conhecimento elucidativo que fosse capaz de dotá-los de faculdades críticas individuais. 

Depreende-se que o objetivo do conhecimento elucidativo era dotar o indivíduo de capacidades intelectuais para interrogar até mesmo o conhecimento disponibilizado por seus próprios mestres. Já o objetivo do conhecimento fundado na educação era preservar uma ciência que fosse capaz de transmitir os hábitos, as crenças e os costumes das primeiras civilizações. 

Pois bem, esse foi um debate que aconteceu no passado, porém, nada impede que façamos a seguinte pergunta: na atualidade as nossas escolas, faculdades, cursos de pós-graduação trabalham a tradição da elucidação ou da educação? O conhecimento disponibilizado pelas escolas do presente permite que seus alunos sejam inovadores? 

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