Entrelinhas

Alice no país das justificativas

13/05/24 - 09:00

Por Juninho Sinonô

“Quem fica observando o vento não plantará, e quem fica olhando para as nuvens não colherá” (Eclecistes 11:4)

Atualmente, um grande número de pessoas prefere justificar os problemas do que os enfrentar.

Me deparei com tal constatação ao demonstrar publicamente o meu desconforto com a situação dos moradores de rua na cidade, que, ao invés de reduzir, continua aumentando, sendo a maioria deles pessoas de outros municípios.

Deparei com a justificativa de que chegam aqui fugindo da violência da capital, sendo oferecido a passagem de volta, mas que preferem ficar. 

E que ainda assim, contam com a assistência de psicólogo, assistente social, documentos, banho, barbearia, material de higiene, roupas, café da manhã, almoço e jantar.

Meus questionamentos foram: esse aumento não seria justamente por toda a assistência concedida para os que estão nas ruas? Não seria mais logico os estimular a sair e não a continuar? Porque não existe um programa de requalificação que separa usuários de drogas, doentes mentais, delinquentes e criminosos daqueles que precisam de uma oportunidade de trabalho?

Porque continuar a dar assistência para os que possuem capacidade de labor?

Recebi, dentre outras respostas, que todos tem o direito de ir e vir; fui questionado em quantos moradores de rua eu já empreguei e que eu não sabia o que falava pois jamais havia precisado dormir na rua.

Mas e quanto a solução?????? 

Esses apontamentos não me ofendem, e vão diretamente contra elas, pessoas que estão nas ruas, pois são meras justificativas para que lá continuem. E o pior: servem também como justificativas para que outras cheguem e fiquem.

Eu já sei o porquê elas estão lá. 

Quero saber como tirá-las e realoca-las em melhores condições.

E o mesmo direito que elas têm de ir e vir, também tem o dono do comércio, as mulheres, crianças e idosos que desejam transitar a qualquer dia e hora, sem qualquer importunação.

A rua não é lugar de moradia de ninguém. Aos que lá estão é preciso ofertar solução e não somente almoço, janta banho e cabelo.

Justificar é fácil. Se não tem argumentos sólidos, basta apontar, ofender, acusar, agredir e culpar ao outro por algo ruim que acontece e pelo qual não se está disposto a resolver.

Enfrentar o problema dói. Nos tira da zona de conforto e leva a sacrificar interesses pessoais em prol da coletividade. Isso incomoda.

Incomoda principalmente aqueles que precisam que o problema continue, para vender a conta gotas aquilo que chama de solução.

Não é fácil manter as boas convicções. 

Exige posicionamento. Quando nos mantermos omissos sobre as coisas que acontecem ao redor, agimos pior dos que se pautam nas justificativas.

Estes criam o próprio consolo, que os permitem continuar no limbo do erro sem qualquer remorso.

Contudo, quem enxerga as injustiças e se omite, carrega o árduo peso da culpa.

Posicionar-se exige um preço pelo qual não gostaríamos de pagar. 

Exposição, inimizades e retaliações. Porém a vida nem sempre é um mar de rosas para os que desejam deixar algo de bom.

Quase nunca é, porque se realmente desejamos contribuir com algo além do nosso sorriso, teremos que fazer o que é necessário, e não o que gostaríamos.

Contudo, conforta saber que é o fazendo, ainda que a duras penas, que ao final teremos a chance de alcançar algo verdadeiro. 

No fundo, todos nós, inclusive os que se abraçam nas justificativas sabemos o que é de fato certo ou errado.

Não é certo que o centro da nossa cidade esteja repleto de pessoas nas ruas. Não é certo que pessoas de outras cidades se sintam confortáveis ao ponto de preferirem vir morar nas nossas ruas que ficar no seu local de origem. 

Não é certo manter todas essas pessoas assistidas sem a distinção clara do perfil de cada uma delas. 

Não é certo que doentes mentais fiquem na rua. Não é certo que usuários de drogas fiquem nas ruas. Não é certo que pessoas sem documentos fiquem nas ruas. Não é certo que pessoas desempregadas fiquem nas ruas. Não é certo que pessoas saudáveis de capacidade laborativa fiquem nas ruas. 

Não é certo que as pessoas que não vivem nas ruas tenham a porta dos seus comércios e residências ocupadas por barracas e tenha, que limpar detritos, fezes e urina.

O que é certo?

Eu tenho certeza que você tem uma resposta bem definida para cada uma dessas situações. E não me venha com a balela de que “eu não sei do que falo ou que nunca precisei passar por isso”.

São questões de politica pública e é dever das autoridades resolver. 

Quer goste ou não, os meus méritos também não são justificativas para a manutenção da desgraça alheia.

Muitas das vezes para que o problema seja resolvido, teremos sim que ir na contramão dos aplausos e da aceitação. 

Jamais se esqueça que a maior das convicções foi defendida por um único homem, contra um sistema de ideologias hipócritas e ultrapassadas, até o seu último suspiro, pregado em uma cruz.

Sozinho contra um exército de justificadores, mas que em questão de tempo sucumbiram diante a força da verdade. 

 

Juninho Sinonô

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