O Juiz, o Jornalista e o Professor

15/01/22 - 09:32

Dr. Ronaldo Filizolla
Dr. Ronaldo Filizolla

Amauri Artimos da Matta

Recém-chegado a Sete Lagoas, em abril de 1991, promovido da Comarca de Carangola, fui trabalhar na Vara Criminal, onde atuava o Dr. Ronaldo Filizzola Guimarães. Iniciava, ainda, a carreira de Promotor de Justiça. Certa feita, deparei-me com um caso de estupro, desses em que a prova é muito frágil, pois o crime se consuma entre quatro paredes. Nesses casos, tem-se a palavra da vítima contra a do réu. Analisei o processo e não tive dúvida em pedir a absolvição dele. 

Explico-me: muitos não sabem, mas o Promotor de Justiça, se estiver convencido da inocência do acusado, tem o dever de requerer a sua absolvição. Veio a sentença. Para minha surpresa, o réu foi condenado. Os detalhes do caso foram alinhavados de forma tão precisa e inteligente, que, em seu conjunto, acabaram por mostrar que o réu era culpado. Naquele instante, convenci-me, ainda mais, de que o Direito, sobretudo como ciência jurídica, é belo e de que as decisões judiciais não podem ser vistas como operações matemáticas. Havia, nos argumentos do saudoso e querido Zô, magistrado experiente, algo mais que uma fria análise das provas.

Anos mais tarde, ao findar 2017, tive a enorme satisfação de ler o livro - “E o poeta falou”, editado em 1991 - e que recebi, como presente, de  Márcio Vicente, exímio cuidador da história, da arte e da cultura de Sete Lagoas. Em suas páginas, a reunião das poesias do grande poeta Renê Guimarães, pai de Ronaldo Filizolla.  O próprio Ronaldo Filizzola prefaciou a obra, o que me fez recordar a sua notável habilidade na arte de escrever. Dos sonetos de Renê, por mim lidos e musicados, pude notar o quanto pai e filho se pareciam, o que veio a ser confirmado nos encontros que tive com a sua família. 

Jornalista, Juiz de Direito e Professor - acima de tudo, um ser humano, na plena acepção da palavra. Até hoje guardo aquela sentença como exemplo. Para mim, uma verdadeira aula!

Amauri Artimos da Matta é Promotor de Justiça aposentado, diretor do Grupo Mão Amiga e presidente do Coral Dom Silvério