Entrelinhas

Não perca a ilusão

“Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento aumenta a tristeza.” (Eclesiastes 1:18) Meu pai dizia que “inteligência demais atrapalha” e “como é bom viver na ilusão”.

02/12/23 - 09:00

Por Juninho Sinonô

Meu pai dizia que “inteligência demais atrapalha” e “como é bom viver na ilusão”.
A lembrança veio quando li a passagem eclesiástica acima transcrita e tão bem aplicável atualmente, quando todos “sabem de tudo”, desde avançadas técnicas da medicina, do aprimoramento do sistema de lançamento de foguetes, até o que você deve ou não comer.
Basta um rápido passeio na virtualidade para constatar a quantidade de sábios ensinando sobre tudo, apesar de não possuírem sabedoria sobre nada nada.
Porque saber não significa sabedoria, apesar do achismo ao contrário.
Como ficar rico, como ser atraente, para onde viajar, o que é gostoso, o que é ruim, o que é politicamente correto, como não sofrer, como ser feliz....
Não é de agora que digo que passamos pela era da superficialidade, onde quase que inexiste a busca pelo aprofundamento das coisas, o que dá segurança para que seja dito algo jamais sentido ou vivenciado.


Mais importante que sentir o gosto e o aroma do café, é explicar as suas características, épocas das safras, notas marcantes e as regiões ideais de cultivo, ainda que todo esse conhecimento fora adquirido por um tablet, e não pela degustação ou plantio da iguaria. 
Sonhar em passear na praia, acampar em cachoeiras ou curtir o final de semana na roça, perdeu a graça em ração da magnitude das Maldivas ou do esplendor de Dubai, mesmo que dificilmente você vá a algum desses lugares nas próximas férias.
Teoricamente, tudo tem uma explicação e por isso, também haverá algo bem melhor a ser feito do que o seu planejamento inicial.
Que chato!
Perdemos a ilusão das coisas. 
Pelo excesso do saber, trocamos o real pelo ideal e, ao invés de curtirmos as nossas expectativas, tornamos reféns das vivências alheias.
Não há mais a graça da descoberta, já que tudo se sabe e tudo se vê. Por conseguinte, foi junto as experiências sensoriais, que só podem ser adquiridas ao de fato sentir.
Sentir o gosto, o cheiro, o calor, a saudade, o frio, as facilidades e as dificuldades.
Por isso na muita sabedoria há muito enfado, já que a graça está justamente no processo de aprender. Depois de atingi-lo, o caminho daquele assunto foi cumprido.
E saber sem aprender é o mesmo que conhecer o surpreendente final de uma trama, repleta de reviravoltas e acontecimentos magníficos, sem, contudo, a ter assistido.
Por enfado, temos a sensação de tédio e aborrecimento. A verdadeira falta de graça.
O excesso do saber se torna enfadonho quando é colocado no lugar da vivência, já que, como bem disse o meu pai, retira de única vez a nossa ilusão, construída de acordo com os nossos desejos individuais e que seria eliminada aos poucos, proporcionalmente conforme as novas descobertas.
Mas então seria melhor não ser sábio e negar o conhecimento?
De forma alguma.
Mesmo porque a sabedoria é uma dádiva. Contudo, quando adquirida por nossos próprios esforços.


Sinto que os pensamentos de Salomão e meu pai se alinham no sentido de que onde existe a predominância da teoria do saber, pouco se tem a aprender, ao passo que o excesso das informações limita, nos privando de fazermos tais descobertas por nós mesmos.
Neste caso, o que fazer?
Primeiro, retomar atenção para as coisas simples e que nos é acessível. Lá estão o verdadeiro aprendizado.
Nada de errado aprender sobre algo que não fará o menor sentido para ser aplicado, desde que a maior importância esteja nas nossas realidades e possibilidades.
Aproveite aquilo que está ao seu alcance. 
Desfrute com prazer da comida que está na sua mesa, dos lugares aos quais você tem acesso, ainda que não tão magníficos como as Maldivas e aprenda com quem de fato possa te ensinar algo.
Essas pessoas não estão no mundo virtual.
Algumas sequer tiveram acesso ao computador e se tem, dificilmente o usa além do estritamente necessário. Não as procure nas redes sociais, pois estarão ocupadas fazendo coisas relevantes.
Concluo que toda a questão não está no saber e sim no seu adquirir. 
Provavelmente por isso Sócrates escolheu passar a vida no aprendizado, ao negar que já sabia de algo, já que esta é a parte divertida: “Só sei que nada sei”
E a melhor forma de aprender é fazendo conforme a nossa história e não pela dos outros, sem nos deixar contaminar por versões e formas de pensar aleatórias.
Afinal, o maior sentido e alegria da vida é justamente a vivência.
Não perca a ilusão.

Juninho Sinonô

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