Vanessa Karam: Velhice digna

04/10/19 - 16:27

A senhora Anke tem olhos muito azuis e brilhantes. Me recebeu com um sorriso largo após despedir-se, em holandês, de uma velhinha em trajes esportivos. Nascida na Holanda, Anke veio para o Brasil muito pequena. Hoje, à meia idade, dedica seus dias ao trabalho contábil e administrativo de um condomínio exclusivo para idosos.

 

Eu estava em Holambra, em visita à Expoflora, quando passei em frente ao conjunto de casas térreas, cercadas de jardins e limitadas por cercas vivas baixinhas. O lugar encantador refletia bem aquela “gentileza urbana” sobre a qual eu meditava há alguns dias. A placa frontal dizia: “Casa de Repouso Holambra – Centro Social Holandês”. Não tive dúvida: acionei o interfone e me apresentei como arquiteta e urbanista (turista), interessada em saber sobre o funcionamento e regras da instituição. 

 

Não faz muito tempo, eu mesma projetei uma ILPI (Instituição de Longa Permanência para Idosos). Um tema fascinante, de extrema importância. Estou sempre atenta às questões de mobilidade e acessibilidade, ciente do envelhecimento da população. A expectativa de vida aumentou, mas ainda carecemos de uma consciência do impacto que isto gera sobre a infraestrutura de nossas cidades e edificações.

 

Busco a arquitetura atemporal e longeva, que abriga sem exclusão e acolhe também  pessoas com eventuais dificuldades de locomoção. Rampas suaves, portas largas, pisos antiderrapantes, alças de apoio, segurança e carinho: medidas que só fazem bem!

 

E lá estava eu, acompanhando a senhora Anke na visita às instalações da chamada “Casa Mãe”, onde se concentram as funções essenciais de alimentação, nutrição, medicação e lavanderia, com agendas de terapias ocupacionais que promovam saúde física, mental e espiritual dos condôminos.

 

À medida que eu adentrava cada aposento, pares de olhinhos curiosos me observavam. Em diferentes idades e condições físicas e mentais, aqueles velhinhos tinham em comum a serenidade do bem-estar. Acompanhados por suas cuidadoras e profissionais diversos (em sua maioria, voluntários), eles não estavam sós. Ao contrário, bem cuidados e amparados como deveriam estar todos os cidadãos de bem que chegam aos dias da velhice. Pensei: “isto é possível!”.

 

Saí do Centro Social Holandês (agora aberto a todas as nacionalidades, mediante normas e mensalidades), como quem sai de um sonho bom. Me pareceram muito práticas e fáceis as ideias adotadas ali. Mesmo na simplicidade de famílias de baixa renda, é possível aplicar as medidas essenciais de organização, disciplina e higiene. Mediante ações educativas, atos sociais voluntários e pequenas adaptações físicas nas edificações, podemos melhorar (e muito) as condições elementares para uma velhice digna... Quem quiser, sonhe junto!

 

Vanessa  Karam

Arquiteta e Urbanista / vanessakaram@oi.com.br 

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